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OPINIÃO

Ferro no nego!

São essas coisas imprevisíveis que desafiam a vida


(Foto: Divulgação) /

A vida tem mesmo suas ironias diárias. E com castigos inesperados também. Conto hoje uma história curiosa. Quando pratiquei a advocacia criminal, defendi nos julgamentos pelo Tribunal do Júri, uma infinidade de homicidas em todos os recantos do nosso Estado. Costumo até brincar com as pessoas que me são mais chegadas que jamais defendi um culpado. Foram todos inocentes! Sim, porque nunca me deparei com um deles sequer que tivesse a coragem de confessar-me. 

Todos, sem qualquer exceção, diziam-se anjos. Teve um deles que alvejou sua vítima com dezoito tiros empunhando dois revólveres calibre 38. Por evidente, teve que recarregar um para consumar sua "defesa". Ante a circunstância de que vivemos numa cidade pequena, era inevitável que encontrasse homens que haviam integrado o corpo de jurados e ouvir seus comentários ou conclusões depois dos julgamentos. Um deles, sem qualquer cautela, disse-me em várias oportunidades, que com ele o jogo era bruto. Não queria nem saber, se caísse como jurado, com ele era "ferro no nego".

Tentei argumentar, muitas vezes, que as coisas não eram bem assim. Que cada caso é um caso! Que na nossa região é raro um homicida que pratique um crime por ter tendência assassina. São quase todos crimes circunstanciais, motivados por brigas inesperadas, consumo de bebidas alcoólicas, insignificâncias que deflagram reações desproporcionadas, e, principalmente, quando tem a presença de uma ou mais mulheres. O homem diante da mulher enche-se de brio e quer provar que é macho! É instintivo! Todo macho na natureza da espécie animal é assim.

Quis o destino que o jurado intransigente que praticava o "ferro no nego", tivesse o acusado as razões que tivesse, por infelicidade matou um homem sob condições absolutamente inevitáveis. Quando soube, a primeira lembrança que tive foi da sua regra: "Ferro no nego". No dia do seu julgamento, embora nada tivesse com aquele processo, fui assistir os debates.

Seu defensor foi simplesmente brilhante. E tinha em favor da defesa o aspecto de que seu cliente era um homem correto, com absoluta ausência de antecedentes que o maculasse. Aquela sessão foi muito longa. Num dos intervalos, enquanto era retirado da sala, ele passou por mim no corredor do Fórum. Num átimo, seus olhos se cruzaram com os meus.

Foi o suficiente para ambos nos lembrarmos do "ferro no nego". Fiquei dias ruminando aquilo. São essas coisas imprevisíveis que desafiam a vida. Como ele deve ter sofrido durante o julgamento diante da possibilidade do "ferro no nego" ser aplicado nele, levando-o à prisão. Mas foi absolvido!

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