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OPINIÃO

Zé Quebrado

Amanhecia e anoitecia no serviço, trabalhando por dois


(Foto: Divulgação) /

Seu Ataliba era considerado um fazendeiro rico. Diziam que suas terras tinham mais de doze milhões de metros quadrados. Coisa de quatrocentos alqueires paulistas. Um homem enérgico e muito exigente. Tinha, porém, os mesmos problemas que todo dono de sítio têm: Não achava gente com disposição para o trabalho. 

A lida ali não era mole. Começava no clarear do dia e só parava bem depois que o Sol se punha. Foi quando o Zé Quebrado apareceu na sede da fazenda sem se saber como, pedindo um prato de comida. O capataz, no princípio, desconfiou daquele estranho. Era um tipo por demais bizarro. Baixote, atarracado, mulato, cicatrizes na cara, tinha uma perna bem torta e um braço mais curto. Cambeteava no caminhar. Uma criatura feia, muito feia. O capataz mandou alimentar o visitante.

Não lhe negaria comida. O Zé, bom de prosa, solicitou, como forma de pagar a boia recebida, uma empreitada qualquer. Não queria caridade. Foi logo narrando, antes que lhe perguntassem que sua aparência e sequelas físicas tinham como causa a sua queda de um pinheiro. Quebrou-se todo. Daí o apelido. Tinha sido remendado sem muito esmero. Jeitoso que só ele, amadrinhou-se por ali. A verdade é que o Zé tapou a boca de todos.

Afora suas deficiências, tinha uma força descomunal. Amanhecia e anoitecia no serviço, trabalhando por dois. Habilidoso no trato do gado miúdo, curando até bicheira. Não refugava tarefa, fossem em horários e dias que fossem. Seu Ataliba afeiçoou-se com o Zé Quebrado oferecendo-lhe trabalho permanente e residência na fazenda. O Zé então disse que só aceitaria morar ali se pudesse trazer sua companheira. Sozinho não seria possível viver. Autorizado, levou sua mulher para morar consigo. Começaram então os problemas. Uma morena esguia, jovem, enxuta de carnes, bem torneada, sedutora, linda. Usava uns vestidinhos curtos e colados no corpo, mostrando as pernas longas e bronzeados. Arfava os seios empinados só pra atiçar. Ficaram todos de olho nela!

O capataz passava o dia esfregando a espora na asa, insinuando-se. Até seu Ataliba perdeu aquela pose austera e andava lançando uns olhares de soslaio e de cobiça na manceba. O falatório e os fuxicos acabaram com a paz da fazenda. Diziam até que um mulherão daqueles não podia ser do Zé. Aquele caboclo todo torto não tinha cacife para uma deusa daquelas! Aos cochichos, os empregados comentavam que o Zé era apenas um "capa" para ocultar a amante do seu Ataliba. No final, o poder corrosivo da inveja venceu: O Zé e sua mulher foram mandados embora!

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