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OPINIÃO

A velhinha

O medo alimenta a covardia


(Foto: Divulgação) /

A velhinha entrou no mercado bastante atrapalhada.  Nem sabia para que lado devia ir. Perguntou para um rapaz, bem apessoado, onde vendiam carne. Referia-se a seção do mercado, por óbvio. Naquele momento ele lia o rótulo duma garrafa de vinho. Olhando a idosa de  esguelha, com um ar superior e debochado, disse para ela que carne é quase sempre vendida no açougue. Ela não percebeu que estava sendo zombada e reperguntou onde ficava então, o açougue.

O moço, agora já com a  torcida de dois outros jovens tão mal educados quanto ele, falou em tom de chacota que ele não era empregado ali, que não tinha obrigação de saber. Riram os três da arrogância de um. Fiquei irritado por ter escutado  aquela conversa. Não devia ter ouvido, mas ouvi. Tive vontade, mas só à vontade, de soltar os cachorros naquele insolente e seus parceiros. Eram fortões. Calculei o risco e fiquei com medo. O medo alimenta a covardia. 

Então fiquei calado e mordido. Desejei apenas que  aqueles jovens um dia precisassem usar supositórios gigantes. Mais ou menos como uma garrafa pet de dois litros. Foi, como forma de vingança, o que me ocorreu. A verdade é que me senti mais humilhado que a velhinha. 

Quem se der ao trabalho de ler esta crônica vai rir, e  quem sabe torcer a boca fazendo um nojinho arrevesado. Mas o que podia fazer? Já não tenho agilidade para correr. Apanhar também não é uma coisa que me atrai. Apresentei-me para a mulher e me tornei seu  guia. A raiva, no entanto, não queria me soltar. O que  será que está acontecendo com os jovens destes dias? Qual a razão de não respeitarem os idosos? Pior, qual será o motivo de serem tão agressivos?

Esse comportamento dos jovens, a todo momento constatável, de gozarem dos velhos fazendo bullying, forçando piadas depreciativas em razão da idade, e intolerâncias diante das limitações deles, é inexplicável. Ironizam, fazem escárnio, olham com desprezo. Gostam de destruir a  autoestima dos mais velhos, como se o mundo pertencesse só para eles, e como se a juventude lhes fosse uma garantia eterna. Tem coisa errada com os moços sobre a qual não estamos nos dando conta. A rebeldia deles contra tudo e quase sempre contra todos, sempre existiu. 

Mas, essa falta de educação social, esse "tô me lixando"  para a opinião dos outros, esse desinteresse pela vida, esse conformismo pela perspectiva de serem pessoas sem futuro, é muito preocupante. Conquistar espaço na sociedade exige determinação, trabalho, esforço. Os jovens estão querendo isso na violência, no afrontamento, na irreverência, indisciplina, com linguagem e expressões  próprias e incultas. Lamentável!

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