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OPINIÃO

O cego

'O escrúpulo é maneta diante do dinheiro a empunhar'


(Ilustração: Divulgação) /

Essas redes sociais fazem com que a gente fique sabendo quase tudo. Pois não é que prenderam lá em Belo Horizonte um falso cego pedindo esmolas? Isso não teria  nenhuma importância, nem seria novidade, não fosse o fato de que na mochila do malandro a policia encontrou mais de três mil reais em dinheiro. Melhor investigado, descobriram que morava numa boa casa, bem mobiliada, carro não muito velho, telefone, televisão, e outros pequenos luxos da classe média baixa. Até uma conta de depósitos bancários ele tinha. Como só acontece nessas oportunidades, os comentários foram fartos. 

A maioria de pessoas indignadas. Algumas, afoitas, já  foram condenando o falsário na pena de prisão perpétua, confisco da sua grana, dos bens, e outras punições mais ou menos severas. Desconcordo! (Que verbo horrível). Talvez em razão do cacoete, o advogado sempre torce pelo bandido. Pois eu fico do lado do ceguinho de araque. Pesquisei na leitura dos jornais e fiquei sabendo que ele havia se aperfeiçoado no ofício. Dramatizava na  forma de pedir, modulava a voz para emocionar quem o ouvia, vestia-se com andrajos. O escrúpulo é maneta diante do dinheiro a empunhar. Cada profissão que se preze exige conhecimento, técnica, treinamento, jeito para a coisa, tino administrativo, trato com a clientela,  etc. Foi o que fez o cego belo horizontino. Afinal, que crime cometeu ele? Quem teria sido logrado perdeu o quê? Moedinhas, migalhas? E convenhamos, não é fácil  andar o dia todo, de avenida em avenida, tateando com uma bengala no chão, fingindo-se cego. A profissão não é das mais fáceis! Viver, dia a dia, pedindo esmolas, com absoluta certeza, é uma tarefa muito difícil. Depois, tem  mais uma coisa: Ninguém dá esmola pensando em ajudar o mendigo. Quem dá esmola só o faz porque aposta no retorno. São os devotos de Francisco de Assis, praticando a oração daquele santo: "É dando que se recebe...". 

Tem gente que dá esmola como se tivesse investindo na  bolsa. Espera a compensação! Por outra, o nosso personagem, cego ou não, com ou sem astúcia, ganhava seu dinheiro trabalhando. Ganhava, não roubava! E afinal, que preconceito é esse contra os deficientes? Devem ser pobres obrigatoriamente? Cego não pode progredir na vida? Erasmo de Roterdã, autor da famosa obra "Elogio da Loucura", afirmava, sem qualquer bloqueio, que em  toda profissão existe também um ladrão disfarçado. Se assim é, o nosso pseudo cego deve ser absolvido. Não  acham?

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