37 anos.png
37 anos.png
  
CarlosHomem.jpg
OPINIÃO

Um ícone

'Menino pobre sonha muito mais que menino rico'

Carlos Homem


(Foto: Divulgação) /

Um homem muito elegante e bem vestido. Sempre com terno e gravata. Tinha uma estatura alta. Uma pessoa sóbria e altiva. Passava todos os dias ali pela frente da minha engraxataria. Era metódico e pontual. Um pouco antes do meio dia ou no começo do entardecer. Eu olhava sempre para os seus sapatos impecáveis, bem limpos e lustrosos.

Nunca me atrevi em oferecer meus serviços como fazia com quase todos que por ali passavam. Momentos em que falava com voz alta: - Quer engraxar os sapatos senhor? Com aquele homem não tinha por quê. Gente rica nem os sapatos sujam. Meu local de trabalho era uma pequena plataforma que toscamente construí com pedaços de madeiras, coletados daqui ou dali. O cliente podia apoiar os dois pés nos suportes depois que sentasse.

Havia uma gaveta na frente onde guardava meus apetrechos: latinhas das graxas pretas e marrom, um vidro com tinta núbio, as escovas e as flanelas. Estava instalada estrategicamente na beira da calçada e em frente a um hotel. Permitiam que ficasse ali naquele ponto com a condição, nunca bem estabelecida, de que auxiliasse os hóspedes no carregamento das malas e bagagens quando davam entrada, ou saiam. Como recompensa eu ganhava o almoço do hotel. Eram deliciosos aqueles pratos feitos e bem sortidos, cada dia com uma comida diferente. Minha gula, sempre maior que a fome, jamais deixou um restinho no prato. A vergonha me inibia de pedir mais. Então, quando aquele homem por ali passava, me ignorando completamente, sem parecer orgulhoso, me deixava por longo tempo fantasiando a vida. Menino pobre sonha muito mais que menino rico. Menino rico tem expectativa, menino pobre não.

A criatura humana, porém, toma atitudes sem nenhuma lógica. Não basta observar a conduta das pessoas, há que se ler mais além, estar preparado para todas as surpresas. Para me ajudar, hoje acredito nisso, aquele meu ícone um dia parou ali e pediu que o acompanhasse. Morava perto. Deu-me para engraxar uma sacola enorme cheia de sapatos. Uns dez ou mais pares! Nem mesmo precisavam de graxa. Estavam perfeitos e brilhantes. Uma pergunta, porém, me angustiava: Para quê alguém precisaria ter tantos pares de sapatos? Eu só tinha um, bem simplesinho que usava só nos domingos. Mas, me esmerei naquela tarefa, estava ali minha chance de ganhar um dinheirinho mais avultado. E ganhei! Jamais poderia imaginar que um dia fosse escrever uma crônica lembrando-me daquele homem.       

Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711