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CRÔNICA

A viúva

'O amor é sensível aos sinais sublimados'


(Foto: Divulgação) /

Uma viúva ainda jovem, com vigor, cheia de  vida. Tinha charme e muita sensualidade. Encantava os homens por onde passava. Era mãe de uma moça com 20 anos, bem mais bonita do que ela. A filha superava a mãe em tudo. Gestos graciosos,  porte elegante, atraente, com modos polidos e ensaiados.

Tinha ainda em seu favor uma aliada  poderosa chamada de juventude que lhe acrescentava maior beleza e vaidade. Como o marido  daquela mulher falecera nos primeiros anos do casamento, criou a menina sozinha, mas com relativa  dificuldade, já que recebia o auxilio financeiro de um relacionamento clandestino. Fazia anos  que seu amante, um homem financeiramente bem situado, cinquentão, encontrava-se furtivamente  com ela, buscando sempre o anonimato.

Ela não podia entender o porquê do seu amante não querer que soubessem daquela situação, uma vez que ele era divorciado e não tinha filhos. Mas, ultimamente  sentia-se inquieta. Fazia já uns dois anos que notara o esfriamento do seu companheiro nos  encontros cada vez mais distanciados. Sob as mais tolas das desculpas a estava evitando. Uma suspeita começou a tomar vulto na sua alma. O amor é sensível aos sinais sublimados. Aquela mudança  de comportamento do seu amásio só podia ter uma justificativa: Havia outra mulher, concluiu. 

Porém nada, nenhuma pista, nenhum indício,  nenhuma suspeita surgia. Ela costumava recebê-lo em casa, entrando sempre seu amado com o carro direto na garagem. Naquela noite, porém, por mera casualidade, ela viu pelo vão da cortina o amante  chegar a pé, e, ao invés de entrar pela porta da frente, como sempre fizera, ele se esgueirou entre os espessos arbustos do jardim que circundavam a casa.

Achou engraçado e pensou que ele estivesse aprontando alguma surpresa, ou uma brincadeira como era do seu temperamento. Resolveu, então,  também surpreendê-lo. Saiu por uma porta lateral indo até os fundos e foi ao encontro dele, ocultando-se também no meio da farta folhagem. Ao invés de ser assustada, ela é quem ia assustá-lo.

No meio da escuridão daquela noite, porém, seu sangue gelou. Escutou aos murmúrios e com insistência, a  voz do amante chamando pelo nome da sua filha que ali também se encontrava escondida entre os  arbustos. Entendeu então, naquele momento e com desespero, de forma terrível, as razões de ter aquele homem perdido o amor por ela.

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