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OPINIÃO

Levada para passear

Por Natalia Sartor


(Foto: Divulgação)/



Jamais soube explicar ao certo o que me impele a escrever sobre determinado assunto ou por que há personagens reais que chamam mais ou menos atenção. Aquela mulher, no entanto, me inspirou pelo fato de eu sempre encontrá-la (em horários alternados do dia), acompanhada pelo seu cachorro.



Parece bizarro, perseguição ou destino. Mas já faz mais de um mês que a vejo todos os dias. Sempre apática. Sempre segurando o cão pela guia. Nunca nos cumprimentamos. A alienação dela torna impossível qualquer aproximação.


Deve estar com mais de quarenta e cinco anos. É loira, esbelta e tem olhos claros. Sou capaz de jurar que ficaria muito bonita se sorrisse. O cachorro - cuja raça desconheço - é de porte mediano, pelagem castanha e temperamento contente.


Nas primeiras vezes em que os encontrei, tinha a impressão de que ela o levava para passear. Só que, depois de tantas semanas observando aquela dupla, concluí que quem a conduz ao passeio é ele.


Fisionomia abatida (quais dores a mortificam?). Olhar esgazeado (quantas tristezas viu? Que alegrias deixou de ver?). Passos de uma lentidão doída (que grande decepção a faz temer avançar?). Costas patologicamente curvadas (quanto peso carregam?). Tudo isso me leva a reconstituir a rotina da mulher e pensar no difícil impulso que, talvez, seja proporcionado apenas pelo cachorro.


De manhã, ela abre os olhos. O bicho pula na cama, massageia a barriga da dona com as patas grosseiras - mas ainda assim carinhosas -, abocanha a coberta e a retira do queixo dela, afastando-a até a metade do corpo preguiçoso da dona. Estimula-a a se levantar (embora ela não queira. Embora sinta que não há sentido).


A mulher então finalmente cede à insistência e se arrasta para o banheiro, torcendo a boca em um quase-sorriso quando, ao voltar para o quarto, encontra o animal com as alças de sua maleta de trabalho entre os dentes e com um olhar de incentivo para ela.


Ao retornar do que a triste senhora certamente considera aprisionante obrigação e estafa suprema, pronta para se deixar morrer silenciosamente no sofá, ele late, começa a se sacudir e a dar saltos insatisfeitos por ter ficado o dia todo dentro de casa. Docilmente ignorado, lambe o rosto pálido da mulher e arranha com delicadeza o dorso da mão largada sobre a almofada. À sua maneira, a convida para passear.


Durante o passeio, encontram a espiã. No caso, eu mesma. Não dão sequer um olá ou um latido à espiã que, por dever de ofício, agradece intimamente pela desconsideração. A espiã percebe que os eventuais puxões na guia que o cão dá são os únicos momentos em que um brilho tímido cintila nos olhos de topázio da mulher. Os trancos são rudimentares - porém eficazes - movimentos visando puxá-la junto, para a vida, a qual ela parece prestes a abandonar.


 Muitos falam que os animais são nossos únicos e verdadeiros amigos. Outros são mais otimistas e dizem que não são os únicos, não obstante sejam os que mais nos protejam e se preocupem conosco. De minha parte, não atribuo exclusivamente à fauna o privilégio da sensibilidade. Tenho um cacto que me entende muito bem.


Seja como for, diante da gentileza do cachorro, acho que seria mesmo muito injusto caso ela procurasse outro melhor amigo.


Leitores, esta é uma das crônicas que estará no meu novo livro "Último ato". A obra tem 68 crônicas e será oficialmente lançada na semana que vem; porém, já está disponível para aquisição através do link:

https://clubedeautores.com.br/livro/ultimo-ato-2?fbclid=IwAR2311LV5Xbv9AxsKvS2Qvl45U_okSFRbnMxXjkzZyTMUhLTp3wA73BrcSE



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