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OPINIÃO

A cortina

Por Natalia Sartor


(Foto: Divulgação)

Uma cortina de veludo branco, luminosa. A milhões de quilômetros de distância, só pode ser vista com a imaginação. O Ser dá o primeiro passo, confiante. 

Na sua mente, sabe: o brilho da cortina o fará sorrir. Dá mais um passo, esperançoso.

A cortina estará suspensa sobre uma plataforma e receberá, continuamente, as luzes dos refletores: azul, verde, vermelho, roxo. O Ser já consegue sentir: o poder representado pela cortina o fará palpitar. Caminha mais, alegre.

Para o Ser, a cortina terá suporte de ouro e na barra pingentes de diamante. Anda ligeiro, sente cheiro de refinamento.

Brilham os olhos do Ser; em seus ouvidos, uma rica canção.

O Ser corre.

A cortina está próxima, ele não vê, mas sabe, sente; materializa vapores aromáticos ao redor do palco e da cortina. Vapores penetrando o branco. Vapores ricos.

O Ser chora. Imenso contentamento pulsa na garganta. Tudo pulsa de um jeito delicioso: pés, pernas, ventre, braços, pescoço, nas costas um arrepio: vai alcançar.

Corre o Ser e vislumbra a cortina, neste exato momento recebendo um jato de coloração amarelo-ouro.

A ganância do Ser não o faz notar que seus pés estão machucados, que romperam-se ligamentos, que nessa corrida insana degeneraram-se fibras, verdades, sentimentos.

Corre o Ser.

A cortina é potente, ele prevê. O que tem por trás dela o será ainda mais. Apressa-se para descerrar o enigma; subir as escadas envernizadas do palco e, num arrebatamento, descobrir o que há logo atrás do mistério luminoso que tão majestosamente domina seus pensamentos.

O Ser agora é velho. Passou a vida correndo para alcançar a cortina. Mas não se arrepende: tem as narinas tomadas pelos vapores cheirosos, os pelos dos braços eriçados, que sensação, que glamour!

Aspira: aroma de riqueza, de luxo, ostentações várias.

Chega. Com as pernas trêmulas, para diante das escadas. Sobe. Um. Dois. Três degraus. Pisa no palco. Nem pode acreditar: está no palco. Arrasta os pés detonados com o intuito de se convencer: está no palco.

Suas mãos vacilam. Bem em frente à cortina, hesitam: terá forças para puxar? Terá equilíbrio suficiente para administrar a imensidão da felicidade que recairá, muito viva, sobre si?

Respira. Fecha os olhos. A Cortina, Ser! Você está olhando para A Cortina, Ser!

Ah, os vapores, tão perfumados.

Abre os olhos. Chora. Pulsa. Treme.

Estende as mãos de dedos pálidos e enrugados. Puxa.

Atônito, fixa o palco.

Não tem nada ali.

Leitoras (es): esta crônica foi lida no vídeo de lançamento da minha mais recente obra "Último ato". Acompanhem pelas redes sociais. Facebook: Natália Sartor de Moraes. Instagram: natalia.sartordm

Link para aquisição do livro: https://clubedeautores.com.br/livro/ultimo-ato-2


(Foto: Divulgação)

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