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OPINIÃO

O fim do jamais acabado

Por Natalia Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Leitoras (es), nesta semana o texto é um conto: para variar a estrutura de crônica que prevalece nesta coluna. Acompanhem o encontro e os desencontros dessa personagem.

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O ano chega ao fim. Os trinta e nove dela também. Às sete da noite sobe ao terceiro andar do prédio onde conversou com ele pela primeira vez. Há dezessete anos, aquele lugar frio, de paredes mortas e teto infiltrado, era um elegante escritório de arquitetura. Monet e Renoir flertando nas paredes. Uma mesa atulhada de projetos. Desenhos meticulosamente aperfeiçoados.

Ela faz quarenta hoje. Três de dezembro de 2020. Ele, há muito mora longe. Deixou o escritório e as saudades ali, no gelado apartamento do Centro, onde ela decidiu escrever seu próximo livro. Alugou o lugar. Ontem, ficou o dia todo olhando para as paredes. Tentou perfurá-las com o olhar. Trazer de volta o que nunca foi seu. Acariciou o contorno estéril onde ficava "O grito", de Munch. Hoje, nada.

Dormiu na cadeira, olhando para a janela, paquerando uma mosca azul, gostou de seu zumbido agoniado. Não. Não saiu do hospício para vir, sorrateiramente, escrever ali. Não, não gosta de ver ninguém sofrer. Nem um inseto. Nem aquela mosca. É que sua zangada estridência é um som agradável aos seus ouvidos, pois é o único ruído que lhe afasta das lembranças.

Quando amanheceu, suas costas estavam doloridas e seu pescoço acabado. Modigliani, de sua tumba, não poderia utilizá-la como musa neste dia. Pescoço torto e costas encurvadas. Os quarenta cobrando seu preço. Mas é um preço pequeno, ainda bem. Um preço bem menor se comparado aos Euros emocionais que lhe consumiram sem trégua, aos vinte e três. Erva ardendo no peito. Dúvida roendo as entranhas. Sarças chamuscadas de ilusão. Os vinte e três e seus gastos. Os quarenta e suas economias.

Só que ela é forte. Se recupera rápido. Fruto das caminhadas infatigáveis e eternas. Estica os braços para trás. São longos. Batem na parede. Não liga. Que incorporem um pouco da atmosfera de luz e recordação que há ali. Mexe o pescoço. Ele dói. Que doa, bicho comprido. Fonte de poesia. Girafa aprisionada. Que doa e pare de doer, como um coração subitamente conformado.

Se senta à cadeira em frente ao computador. Abre o Word. Tudo tão igual há dezessete anos. Seus dedos ainda passeiam ligeiros pelo teclado, derramando suas angústias ali. De pianista, ele dizia. Tem dedos de pianista. Para. Tudo foi sempre tão inviável. Ela acreditando no sublime. Ele, no efêmero. Ela, ansiando por uma migalha de segurança. Ele, de incertezas. Ela, a doce fera. Ele, o anjo desviado. Tudo tresloucado. Tudo fora de eixo. O encontro de duas almas nômades que se reconhecem, mas não ficam juntas. Porque ambas não sabem o significado de ficar, mas querem descobrir o de ir.

Ele quis ir. E foi. Sem rumo nem apego, como sempre desejou. A bagagem, apenas uma mochila jeans e o gosto de uma liberdade incapaz na boca. O nada preenchendo seu peito. Ela ficou, aos olhos dos outros. Mas foi, aos seus próprios. Foi buscar histórias. Reais e irreais. Seguiu suas pernas onde elas lhe levaram, sem projetar caminho. Ficou na cidade. Porém, respeitou seu desassossego interior e continuou amante das palavras, concubina das letras e refém de homem nenhum.

Amor de alma não é amor de mundo. O não decidir nunca foi uma opção para ela. E ele sempre soube. Mas, para ele, era. Paciência. O existencialismo os separou... Ou será que nunca estiveram juntos de verdade?

Levanta. Está sem inspiração e com o pescoço ainda rígido. Segue o conselho de um inesquecível amigo, que nunca mais viu: quando não souber o que escrever, vá para a janela. Busque uma alma perdida. Uma mulher enjaulada. Um homem abatido. Busque uma criança. Ou seja a criança. Mas hoje não quer ser criança. Quer ser a moça dos vinte e três.

Toca a janela com a ponta dos dedos, como se o vidro austero fosse um piano envelhecido. Olha para baixo. Com apenas uma faísca de surpresa, nota que ele, após quase duas décadas, olha para cima. Para a janela que já foi sua. Olha para ela. A surpresa é pouca porque sempre soube que energias não se separam. Pessoas, sim. Não energias. Sorri com algum pudor.

Não sabe mais o que sente. Ele também não, é certo. Porém, está lá embaixo. Com um embrulho grande sob a axila. Tem o tamanho exato de um quadro. Ele ergue o embrulho na direção dela, e sorri. Não como ela. Sorri mesmo. Largamente. Como um homem que se encontrou. Tardiamente, mas se encontrou.

Com um gesto, manda que suba. As paredes precisam da obra-prima sem embrulho. O cômodo tem saudade da sua presença. E ela? Ela tinha certeza que ele viria.


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