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OPINIÃO

O chá

Por Natalia Sartor


(Foto: Divulgação)

Se viva fosse, Clarice estaria completando 100 anos, hoje. Em 10 de dezembro de 1920, nascia em Chechelnyk, na Ucrânia, Chaya Pinkhasovna Lispector.

Considerada hermética na visão de muitos, mas de escrita simples, para si mesma, Clarice, entretanto, admitia as próprias contradições, tanto que perguntou a Niemeyer o entendimento dele acerca de uma crônica de sua autoria: "por que você acha que escrevi: "quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer." "

Apesar da filosófica profundidade, disse em entrevista considerar mais fácil interagir com as crianças, pois estas, nas palavras dela "têm a fantasia solta", enquanto o adulto "é triste e solitário".

Os filhos da escritora são tema de textos seus, como nos casos da caneta de ouro e das três experiências - relato no qual ela enumera as virtudes para as quais nasceu: amar os outros, escrever, e criar os filhos.

Me permiti uma rara fantasia solta de criança e fingi que Clarice, rediviva, no alto dos seus 100 anos, com alma de 200, resolve vir tomar um chá na minha casa. Se senta no sofá; eu, no chão, aos pés dela. No baixo dos meus 27, com alma de 120, temos assuntos em comum. Conto-lhe das minhas questões nela inspiradas, segredo-lhe que já sonhei com ela, sussurro ainda: apesar de imersa em fantasia de criança, não passo de uma patética adulta - triste e solitária.

Clarice move os lábios, num sorriso melancólico; toma um gole de chá. Depois, pede para ver as fotos da minha formatura em Direito. Anuncia que igualmente se formou, em esquecida década, no mesmo curso.

Olhando as fotos, aproveito para relembrar o dia do meu primeiro lançamento, num 10 de dezembro. Agora me parece que ela sorri com menos timidez, fala que só resta lhe dizer que também foi aos 23 anos que lancei minha obra de estreia. Revelo que sim. Rimos juntas. Dessa vez, rimos.

Mas os nossos temperamentos não deixam expressivo espaço à despreocupação; logo um sopro de inquietude se alberga entre nós. Me levanto, visando resgatar um livro dela. Entrego-lhe nas mãos. Clarice, largando sua xícara, abre aleatoriamente, justo na página de uma crônica intitulada: o chá. Curiosa, parece gostar dos trechos que sublinhei, mas lê em voz alta apenas um deles:

"(...) que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro".

De súbito, numa brilhante e perfumada nuvem de cidreira e palavras, desaparece.

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