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OPINIÃO

O meu mais duro desaparecimento

'Fui resgatada pelos outros...'

Por Natalia Sartor


(Foto: Divulgação)/

    Sumi aos três anos, no campo. Tinham-me levado dormindo, para o sítio. Ao chegarmos ao destino, acharam uma pena o despertamento, então resolveram permitir à criança os seus sonhos - quem sabe num inconsciente desejo de que durassem, enquanto podiam. 

    Foram olhar brevemente os animais e me deixaram, no carro. Segundo os adultos, eu ressonava, num sono abençoado que nunca mais foi o meu. Acordei (não lembro, mas muitos anos depois, me contaram que acordei). Passaram-se dez, quinze minutos. Voltando, se depararam com os bancos desertos, sem o bebê.

    Sorte que eu estava não muito distante, vinte ou trinta passos adentrando o mato. Empunhava uma varinha e riscava a terra, com uma tranquilidade de gente encontrada em sua serena perdição.

    Aos dez, sumi de novo. Dessa vez, na praia. E dessa vez a memória é nítida. Fazia inocentes castelos, com dois amigos. Focada na construção, não percebi quando correram para comprar picolé. Assim que levantei os olhos da ilusão, a realidade foi a solidão. Lembro-me do desamparo e também que, tão desnorteada topograficamente quanto hoje, ignorando onde se tinham postado os grandes, fui caminhando pela quentura das areias, perquirindo o que até hoje não descobri: o meu lugar.

    Naquele cintilar de natureza sadia, na esperança da paisagem fresca, espargiu-se a minha gente, dizendo a todos: não vimos mais uma menina magrinha, de cabelos compridos, com dez anos, aparentando oito, ou sete, nem bonita nem feia: perdida. Após alguma diligência, me acharam na plena desorientação de quem olha para o mar pedindo a ele um apoio.

    Nessas ocasiões que poderiam ter trazido mais sérias consequências, fui resgatada pelos outros. Porém, duro mesmo foi um desaparecimento posterior, já depois de velha. Na pungente fratura dos enganos, no apagar das estrelas inventadas, no amargar das fantasias de mel, no crescer dos fantasmas de aço, me perdi e ninguém me procurou.

    Desapareci e nunca mais me encontrei.


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