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OPINIÃO

Aquela doce bailarina

'No meio das cinzas coloridas, fiquei, sorrindo e dançando.'

Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/

Neste início de ano, em vez de avivar esperanças, decidi percorrer a estrada inversa e queimá-las. Ilusões têm múltiplas vidas, mas a incineração é o caminho mais seguro para decepar os traiçoeiros ramos do ingrato desejo de sobrevivência.  

Em um dia de brisa amena, céu tranquilo e alma conformada, sentei-me no chão da sacada. Fiquei satisfeita ao constatar que nem o vento, nem a chuva e muito menos o meu interior voluntarioso impediriam a destruição dos fragmentos de infância empilhados na bacia de alumínio, que o fósforo visava para a eternidade apagar.

Quatro ou cinco cartas para o Destino da criança, papeizinhos amarelados, letra pequena. Os pedidos: boneca, caixa de música, gibis, cesta de chocolates, agenda com adesivos. Cartas devolvidas pelos meus pais; me deram os presentes e, tão logo descobri a inexistência do personagem de barbas brancas, devolveram os pedaços de engano nos quais o meu pulso crente rabiscara.

Fotos minhas: uma criança magra, banguela; feliz, porém - em roupas estampadas se mostrando às toscas câmeras da época. Fotos com a boneca Barbie, fotos com outras crianças.

Páginas de velhas agendas onde anseios mais secretos se escreveram, no afã de que logo chegasse a fase adulta: ter a minha casa, o meu carro, a minha profissão, a minha vida. Ter a mim mesma, será? Ou, mais: tornar a mim sempre que eu de mim me desviasse?

Ainda na bacia de alumínio, bem no meio, mergulhada nas melancólicas águas dos outros chorosos papéis, a bailarina. Muito nova, na ingênua sofreguidão dos sonhos musicados, desenhei uma bailarina. Só hoje percebo como sempre foi triste aquela dançarina: apesar do exterior de seda, dos leves sapatos que a conduziriam ao éter, como tinha olhos desconsolados! Os cabelos, pintados de preto, puxados em um coque, deixavam evidentes trêmulas pálpebras, sobrancelhas grossamente angustiadas.

 Os ladrilhos mornos da sacada, logo abaixo de mim, brilhantes depois da limpeza do dia anterior, esperavam que eu não queimasse, mas mantivesse os trechos esquecidos da infância; me disseram: um dia haveriam de fazer algum sentido para a adulta que em nada um sentido encontra. Os ladrilhos me falaram: a bailarina ressuscitaria se poupada fosse; algum Papai Noel fora de época se materializaria, trazendo nas fraternas mãos a caixinha de música, na qual haveria outra bailarina, para fazer companhia à primeira - à do desenho lacrimoso.

Pedi que o solo ficasse quieto, se colocasse no seu lugar de permanecer, não almejasse ser quando apenas existir lhe cabia. Se calasse o solo. Me deixassem em paz os ladrilhos falantes.

Risquei um fósforo. Naquele famigerado instante, contudo, uma insuspeitada rajada de vento adentrou a sacada e, alegre, apagou a devastação apenas iniciada na língua alaranjada do topo do fósforo.

Suspirei. Olhei para o céu e, o que era para ser um dia dócil, subitamente adquiria a feição do mais apavorante temporal. Rosnei: ninguém venceria a vontade de atear fogo às ilusões, nada mais manteria a minha inútil inocência. Risquei o segundo fósforo; com agilidade, joguei-o na bacia.

Em pouco tempo, vi a letra de criança se retorcer, para sempre se apagar, os retratos da menina tomaram rumo parecido, inexistidos, calcinados. A chuva agora derramava do céu ao chão, decerto furiosa com a ruína em época moldada para atitude contrária. Logo estavam ensopados os cabelos, caíam gotas geladas sobre meu rosto ainda mais frio e desacreditado.

Quando labaredas tentaram atingir o centro do recipiente guardador das chamas, entretanto, a chuva caiu em cheio no âmago daquele corrosivo fim; uma sorridente bailarina de cabelos lustrosos, finalmente soltos, conseguiu saltar da morte.

De seus lábios se soltava música doce e desconhecida, de seus pés, gratos aos ladrilhos, lindos passos espontâneos, rodeados de magia.

A bela mulher sorriu. Do sorriso se esvaía tanto fulgor lilás, tanto fulgor... Pisquei. Ao abrir novamente os olhos, planavam duas borboletas brotadas de seus lábios.

Antes que asas surgissem e a levassem dali, ainda teve tempo de pegar delicadamente as cinzas da bacia e jogá-las para cima, como se confete fossem.

Depois sumiu. Me deixou.

No meio das cinzas coloridas, fiquei, sorrindo e dançando.

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