38 anos.png
OPINIÃO

Queridos burocratas

'Submersa nesse estado de desânimo, me deparei com a famigerada certidão de nascimento'

Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) /

A chuva que muitos pediram, clamaram e rezaram de joelhos para que caísse, finalmente se mostrou: e veio fazendo estragos, como sempre vem, externos e por dentro. Pediram a danada, não pediram? Aí está: em excesso. Pena que tantos esquecem-se de que quem chama o inferno não pode controlar a intensidade das chamas. Pois bem. Foi mesmo a minha determinada inimiga que me relegou ao fundo das gavetas; foi, mais uma vez, a chuva que abrasou a melancolia. Submersa nesse estado de desânimo, me deparei com a famigerada certidão de nascimento.

Num final de mês de esquecidos tempos nascia uma criança que, quando adulta, inexistiu. Em um dia 25 de uma época em que nem sonhos a menina tinha - tão tenro seu recém-nascido coração - berrava pela maternidade de Curitibanos um bebê que por pouco não passou da hora: pronto, mas quieto, com receio de incomodar; com receio, as experiências comprovariam depois, de viver.

O rebento expôs o mau humor ao mundo em março, mas só na metade de abril é que lhe oficializaram a vida. Uma folha timbrada, algumas palavras em negrito, as informações referentes à criança e à sua filiação batidas à máquina. Num 14 de abril de alguma parte da década de 90, a peculiar assinatura do oficial de registro civil da época... E parece que assim, nesse dia, fizeram existir a minha inexistência.

Está aqui, olho para a folha agora: preâmbulo de praxe, nomes dos meus pais, dos meus avós, datas, números, assinatura, carimbo. Conforme a convenção do mundo, é esse papel que me permite existir. Mas se o tal documento, já amarelado, velho, feio e patético for destruído em todas as suas vias, deixo eu de ter o direito de pensar a existência humana, visto que não terei a minha? Ou, independente da vida do papel, a inexistência do sujeito se comprova?

Burocratas se felicitam e enaltecem o sistema: mais um registro de nascimento lavrado! Mais uma criança nascida! Queridos burocratas, a criança já gritava e chorava muito antes que preenchessem os espaços em branco do documento-modelo. Quando a essa mesma pessoa cessar a vida, morrerá queira o papel ou não. Além do mais, muito nome não se escreve como vocês colocam ali, tem muito Y, W e H que vocês esquecem. Há muita Patrícia que a mãe queria que se chamasse Patryscia. Há Marcelo que o pai queria Marcello, há Valter que os pais desejaram Walter. Há Mayara que os pais pensaram Mayra. Há Rodolfo planejado Rudolph - a desatenção de um relapso perfeccionista marcou com tinta, para sempre, as faces inocentes e chorosas de milhões de nenês.

Há avô que não é avô, pai que não é pai, mãe que só deu o nome e emprestou o útero: e nada disso se vincula à meia dúzia de informações orgulhosamente cuspidas ali.

A chuva em demasia inunda, provoca deslizamentos, prejudica as lavouras, mata as esperanças, mas nem por isso é capaz de banhar uma alma árida. Registros de nascimento dão trabalho aos cartórios, são peça para a engrenagem da burocracia, fazem sorrir os burocratas e enaltecem o sistema, mas nem por isso garantem a existência de alguém.


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711