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OPINIÃO

Barbie do Paraguai


(Foto: Divulgação)/

    Com frequência me sinto só. Mas em nenhum outro tempo havia me sentido tão só como naquele dia. Naquele picadeiro. O picadeiro me fez entender o quanto a solidão machuca ainda mais quando posta em evidência.

O simbolismo da espontaneidade como sinônimo de idiotice era o requisito essencial (se não o único) para ser contratada, ou ao menos para subir um degrau naquela singular terapia grupal que utilizava o humor como carro-chefe da cura.

 Ainda nos bastidores, antes da apresentação, recebi o pseudônimo de Barbie do Paraguai. Encenaria a minha verdade sob o estigma da mentira, com um nariz vermelho, para coroar a valentia.

Na vida a gente aprende que nunca deve dizer nunca; mas eu nunca, nunca, nunca, imaginei que algum dia iria me candidatar para um circo. Que dirá para a função de palhaça. A vida tem seus truques, suas surpresas, suas mágicas, coreografias inusitadas, monsieur's mal humorados e Pandoras lindamente debochadas. A vida tem dos seus diálogos solitários.

E naquele dia tive que enfrentar um debate entre as minhas duas partes: era a prova de gelo e fogo para mostrar a suposta habilidade com as palavras. Conversa exaltada. Solidão sussurrada.

A razão dizia bravatas. A emoção, verdades. A razão, pretensamente correta, bradava odiar a emoção, em tese culpada, condenada e enforcada pela razão. A emoção, por fim, nem quis discutir muito, somente desdenhou da adversária, garantindo que ela jamais a subjugaria.

Enquanto isso, divertindo-se na cadeira de monsieur, diante do meu espetáculo de idiotices catárticas, o dono do circo, vulgo idiota-mor, rebateu. Pela primeira vez rebateu. Disse que quando todo mundo é quadrado e você uma bola, quando todo mundo é ponta de aço e você um balão, quando todo mundo gosta do azul e você do vermelho é mesmo difícil a realidade de aceitar que (ele falou para me consolar): sou inadequada para o mundo. E para me consolar ainda mais, lançou o conselho delicado: dane-se.

Dane-se, você é uma bola no orbe dos quadrados. Dane-se, você é um balão no universo das pontas de aço. Dane-se você gosta do vermelho, não adianta se forçar a gostar do azul. Dane-se, você é bem mais emoção do que razão. Dane-se, você é uma idiota.

Devidamente consolada? De certa forma. Ainda estou na fase de treinamento (um treinamento excruciante que vai durar a vida toda, me custar muito nariz vermelho, muita briga interna, muitos tombos, arranhões, quebraduras e recomeços). Mas a solidão acabou. De agora em diante vou encenar no picadeiro dos loucos. Fui contratada.

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