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CRÔNICA

O valor de uma cicatriz


(Foto: Divulgação) /

Me mandaram buscar uma faca visando um propósito qualquer, não lembro qual: descascar uma fruta, limpar a sola de um sapato, raspar uma sujeira do rodapé ou alguma outra trivialidade. Eu tinha quatro anos. Ingênua, peguei uma grande e afiada, não a pequena e de serra que haviam recomendado os adultos. Mais ingênua ainda - além de desmemoriada, pois sempre alertavam do cuidado que se deve ter com facas -, carreguei o objeto com a ponta para cima, na direção do queixo e fui, feliz na minha burrice, atender ao pedido que me fora feito.

Um degrau separava a cozinha da despensa e um tapete traidor foi espetacularmente eficaz no trabalho de zombar das minhas pernas curtas. O tombo não seria tão feio, não fosse a faca que rasgou a carne logo acima do joelho direito.

Nunca gostei de sangue. Nem de ver, nem de sentir o cheiro, muito menos de chorá-lo, apesar de já ter experimentado boa parte das fases do sangue físico e emocional, como todos nós. A faca lacerando o joelho me levou ao que seria depois rememorado como o meu primeiro desmaio. Acordei com os adultos me abanando como a uma rainha desenganada, que perdeu os sentidos por amor... e a dor e o amor não seriam mesmo sinônimos?

Uma faixa antes branca envolvia a ferida que tingira o pano com o vermelho cruel do meu iludido sangue infantil. Mal vislumbrei a mancha e desmaiei de novo. Da segunda vez que retomei o tino, estava deitada num sofá, e mais gente me abanava com o desespero e a inocência de quem busca ressuscitar um defunto... somos nós tão perspicazes para saber quando o defunto quer ser ressuscitado? Só que, aos quatro anos, acho que queria voltar ao mundo. Eu era ingênua, já disse.

Depois foi um tal de gente se culpar por pedir a uma criança trazer uma faca, um tal de choro pela ferida, um tal de dizerem que ficaria traumatizada, um tal de me bajularem com doces e promessas (o que eu gostei bastante). No entanto, como tudo na vida, acabou. Fluiu. Foi-se. Partiu. Vinte anos se passaram, o sangue da criança ganhou vigor, as pernas curtas ficaram longas, o sofá não é mais o mesmo, os adultos envelheceram, a faixa maculada foi para a lixeira junto com a faca - que não teve culpa nenhuma, a infeliz. O tapete não fica mais na frente do degrau e o próprio degrau está um tanto encardido. A ferida sarou, mas a cicatriz continua aqui, no meu joelho.

Hoje é uma marca insignificante de uns três centímetros de comprimento, pouca espessura e um tom mais claro que minha pele. Coisa ridícula de tão pequena. Na verdade nem sei se ainda existe ou se sou eu que projeto sua sombra, em uma homenagem bizarra à dor que senti na época. À dor, aos desmaios, ao inveterado temor de sangue e à irritação que até hoje sinto ao tentarem, por qualquer motivo, me abanar. A cicatriz ficou. Está aqui. Se fraca no joelho, bastante evidente no pensamento. E que bom. Que bom que ficou a cicatriz; assim nunca mais cometo erro equivalente. Assim nunca mais levo uma faca com descuido, nunca mais ignoro os degraus do caminho e nunca, mas nunca mais esqueço que tapetes são cobras de tecido, mas não sem veneno.

Creio que a mágoa e o ressentimento, tão condenados por tanta gente sejam, à sua maneira, formas de nos lembrar que já sofremos, já sangramos, já fomos feridos, enfaixados, às vezes demoramos a convalescer o corpo e apaziguar a alma. Não, não me internem num sanatório. Não estou advogando em favor desses dois sentimentos estigmatizados. Só estou dizendo que são cicatrizes emocionais, rudes costuras em nossos corações, mas que nos impedem de cometer idiotices semelhantes.

Posso parecer fria e até amargurada, e talvez o seja mesmo. Entretanto, embora não faça questão de cultuar a mágoa, fico grata quando ela pulsa mansamente e já sem a potência aflitiva e me recorda que a faca foi jogada fora, mas a ferida demorou fechar, o tapete não me afronta mais, mas o talho na carne doeu tanto, a pele se reconstituiu milhares de vezes, mas a lembrança é antiga e imbatível. E se um joelho custa a se refazer, que dirá um coração?

 Por vezes é saudável ressentir a dor e chorar o sangue apesar de suas causas não existirem mais concretamente, para que não venhamos a pisar no mesmo terreno movediço, na mesma selva perigosa, na mesma areia devoradora. Sei que se não olharmos frequentemente para a cicatriz vamos colocar outra ferida bem no lugar dela, por motivos iguais e tolice idêntica. Só que o sofrimento, então, será maior, porque além do machucado novo haverá muito do velho arrependimento.

Quem sabe no fundo eu seja apenas uma medrosa, tão somente uma desconfiada que não acredita que o caminho espinhoso do passado possa hoje me trazer flores. E não acredito mesmo. Que Deus perdoe minha falta de fé, mas não acredito. E se toda essa dureza serve para alguma coisa é para que eu nunca, jamais, em nenhuma hipótese transporte uma faca com a ponta para cima.


Texto originalmente publicado em 18 de maio de 2017

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