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OPINIÃO

A música que vibra nos tempos

'Dos dez aos treze anos fui uma entusiasmada estudante de música'

Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação)/

Milhares de semínimas espalhadas pelos ossos, centenas de colcheias misturadas aos nervos; fá, sol, lá, si, no sangue; dó, ré, mi, na pele; um sustenido no olho direito, um bemol no esquerdo e uma enorme clave de sol no lugar do coração: somos o que ouvimos. Numa vida ideal, meu corpo inteiro seria formado por notas e acidentes musicais. Quis um recôndito anseio que fosse ele refém das letras, no entanto.

Dos dez aos treze anos fui uma entusiasmada estudante de música e fiz breves apresentações em recitais. Tocava teclado, mas não admirava menos o piano, o violão, a flauta, o acordeon. A música, assim como a escrita, é uma forma de abstrair a linguagem do mundo e depositar outra, menos dolorosa, no lugar.

A música que vibra nos tempos, natural do mundo, independente de instrumentos forjados, é aquela que já se ouve sem se querer: um grito de criança espancada, de mulher violentada, de homem angustiado; um murmúrio de dor, um gemido de fome, o apito da poluição, o som medonho do relógio que impõe uma hora a menos, um mês a menos, um ano a menos - a existência desperdiçada nos ponteiros.

A música que vibra nos tempos é a do respirador improvisando o trabalho que um pulmão frágil já não é capaz de fazer, das minguadas moedas no semáforo, do chute na barriga com outro ser dentro, do maxilar espatifado numa briga inverossímil - todas as brigas são inverossímeis - exceto as internas.

A música que vibra nos tempos é a do carro desgovernado, do bêbado super-herói, do bêbado deprimido, do bêbado tarado, do bêbado com crise existencial, do bêbado com crise de princípios, do bêbado, do bêbado, do bêbado.

A música que vibra nos tempos é a do tiro do traficante, do tiro assassino, do tiro anunciador, do tiro da elite, do tiro do pobre, do tiro das facilidades principiando dificuldades, do tiro, do tiro, do tiro.

A música que vibra nos tempos é a da algema em pulsos e tornozelos culpados - e inocentes. A do juiz dizendo culpado, a do juiz dizendo inocente, a da imprensa garantindo: foi suborno! A do corporativismo bradando: calem a boca!

A música que vibra nos tempos é a voz da estuprada pobre acusando judicialmente o rico estuprador. E essa será uma música rapidamente desacreditada através do som de cédulas trocadas de mãos.

A música que vibra nos tempos é a aflição do negro gritando: não fui eu que roubei! E, mais uma vez, um maço de cédulas trocadas de mãos zombará do legítimo protesto indignado.

As músicas que vibram nos tempos são principalmente aquelas dos discursos pifados de que todos têm oportunidades iguais, que querer é poder, que a justiça é justa, que todo chefe de estado é inteligente, que todo religioso é bonzinho, que todo o pai ama os filhos, que todo filho se arrepende, que o bem sempre vence, que toda morte conduz a um lugar melhor.

Porque, sim, apesar da cotidiana tragédia, a música que mais vibra nos tempos ainda é a da hipocrisia. E o pior: somos o que ouvimos.

Diante disso, tenho tão séria culpabilidade por preferir musicar eu mesma o meu mundo inventado?

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