38 anos.png
OPINIÃO

Tudo por medo

'Creio que chamem de crise existencial esse pavor que muitos sentem ao chegar a certa etapa da vida e perceber que não fizeram nada...'

Por Natália Sartor de Moraes*


(Foto: Divulgação)/

A escritora Gertrude Stein dizia que "Lutamos contra as nossas qualidades mais excepcionais até cerca dos quarenta anos, quando então descobrimos, tarde demais, que elas compunham o nosso verdadeiro ser. Eram a parte mais íntima de nós mesmos, que devíamos ter nutrido e acalentado". São palavras dela, não minhas; o que não me impediu de ficar martelando sobre elas durante a semana toda, como se estivesse prestes a fazer quarenta anos e descobrir, tarde demais, que fui uma caricatura para mim mesma durante décadas.

Creio que chamem de crise existencial esse pavor que muitos sentem ao chegar a certa etapa da vida e perceber que não fizeram nada, apesar de possuírem beleza, fortuna e poder. Tudo aos olhos míopes do mundo, nada no próprio coração. Construíram um império: perderam tempo. Valorizaram a superfície: mataram a substância. Tiveram posição cobiçada: aniquilaram os mais puros ideais.

Sim, quem vos fala sou eu: reles cronista, concubina das palavras e amante da poesia. Uma sonhadora, enfim. Não me deem atenção, mas empreguem um pouquinho de suas disposições para analisar as inquietudes da Gertrude Stein.

Dias atrás, percorrendo meu usual trajeto na Vidal Ramos, quase esbarrei em um executivo que empunhava uma maleta, caminhava com nervosismo e tinha a postura dolorosamente arqueada. Imaginei se os presumíveis milhões na conta dele não saíam de quando em quando - como naquele momento - para fazer um passeio sobre seus ombros.

 Terno importado, sapatos opulentos e ventre protuberante, só os cabelos eram modestos. Olhou acusadoramente para meus tênis e uma reprovação rascante deformou-lhe os lábios quando relanceou a calça jeans. Um homem de destaque econômico e social. Bela porcaria. Por pouco não saio correndo trocar o tênis por um salto e a calça por uma saia sofisticada, mas antes daria uma passadinha no inferno pegar um casaco pra mim e solicitar um implante pra ele. Ouvi dizer que até no inferno estão passando frio e que, até lá, boa parte dos milionários estão ficando carecas.

Contudo, a grande importância que eu dei ao desdém do executivo logo se diluiu, porque comecei a imaginar como ele reagiria caso lesse a sentença da Gertrude Stein e refletisse sobre ela. Talvez não tivesse tempo de fazê-lo. A frustração evidente que li em seus olhos nos poucos segundos em que eles se prestaram a me repreender faria, por si só, com que deixasse de lado qualquer experiência - literária ou real - que o aproximasse do seu verdadeiro ser. E tudo por medo. Tudo por medo de se encontrar e descobrir que acumulou capital, mas desperdiçou as energias vitais em algo que nunca acreditou. Tudo por medo de perceber que se sente um ser humano nulo. Por medo de ter de se obrigar a olhar para os filhos e admitir que foi displicente perante suas dores, julgando-as ninharias. Por medo de querer voltar nesta via expressa que elevou sua posição mundana e estilhaçou a alma, querer voltar e ver que já não pode mais. Querer voltar e sentir que está na garganta escura do tempo. Querer voltar e seu olfato acusar cheiro de mofo. Cheiro de passado consumido.

A parte mais íntima de si mesmo que ele não nutriu e não teve tempo de acalentar. A parte mais íntima, mais excepcional, que o tornaria único, não um frustrado. Não um rico falido.

A educada definitivamente não sou eu, não busco amainar as expressões: é frustrado, é falido, tem a morte nos olhos e o peso de toda sua grana nos ombros. Mas não esqueçam: minha opinião é um vira-lata latindo para um Rottweiler, meus palpites são o jeans desbotado diante do terno italiano e minhas pretensões artísticas são franzinas casinhas de pau-a-pique competindo com mansões góticas.

Estou apenas preservando o meu verdadeiro ser, para que o tempo não me consuma antes, para que a existência não escorra como sangue doído entre meus dedos, para que nunca, jamais, eu olhe para trás e saiba que fiz tudo certo para o mundo e tudo, mas tudo tão e tão errado pra mim.

Para que não aconteça de quando esta via expressa que é a existência fatalmente me impuser a prestação de contas eu me arrependa, mas não possa voltar atrás por medo.


*Esta coluna foi publicada originalmente no dia 4 de Maio de 2017

Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711