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OPINIÃO

Faça o que eles mandam, não faça o que eles fizeram

Por Natalia Sartor


(Foto: Divulgação)/

Se cada cidadão pudesse dar um palpite para a mudança na engrenagem do sistema, qual seria o seu? O meu seria que, a cada vez que um governante fizesse um ato incoerente em relação à própria conduta, fosse extirpado do cargo.

Não é segredo pra ninguém que durante as eleições o vírus deu uma trégua, se acalmou para que os políticos pudessem abraçar todo mundo, prometer ao pé do ouvido e disseminar salivas talvez contaminadas. Na teoria se acalmou, na prática a lástima ainda perdura.

Nas últimas semanas, chovem decretos proibindo as malfadadas aglomerações: começasse pelo exemplo de quem prolata a norma e seria bonito. Mas é voz corrente entre diversos politiqueiros, especialmente entre os descendentes do coronelismo, que a memória do eleitor é curta. Se for, faço questão de alongar: logo após o dia das eleições (saturado de festejos embebidos de vírus e hipocrisia) houve um aumento alarmante nos casos de COVID.

Agora, essas autoridades, eleitas pelo povo, se esquecem que o mesmo povo pode retirá-las de lá num riscar de canetas, milhares de canetas se manifestando e vertendo na realidade sua memória longa e sempre subestimada pelos mais hipócritas.

O vírus se alastrou, sim, está matando ainda, muito, e parte da responsabilidade é justamente daqueles que, durante meses, fizeram visitas, jantares e, sobretudo, comemorações reunindo centenas de pessoas; abraços em profusão, discursos calculados cuspidos sobre rostos outrora crédulos, que hoje acordam e lamentam uma breve sequência de números apertados em uma maquininha infectada.

Passados alguns meses da eleição, decretos de gente eleita depois de muito rir das medidas de distanciamento interferem até na propriedade privada (aquela visitada por candidatos que, durante a campanha, tinham interesses que justificavam as visitas democráticas e bem-intencionadas).

Para quem não está por dentro, conforme recentes decretos, uma reunião de pessoas (independente da quantidade) em propriedade privada também pode ser punida administrativa, criminal e civilmente; mas em momento politiqueiro um grande número de querubins com a moral ilibada estava apenas espalhando democracia.

Parece que o que se quer que nós acreditemos é que se for pra eleição não faz mal a aglomeração, já interferir na propriedade privada... Isso pode. Pena que fecham os olhos ao fato de que não se contém uma calamidade pública criando outra, principalmente em terra de quem não admite que o poder público bote o dedo tendencioso em coisa particular.

Em outras épocas, quando a tributação do charque superou o bom senso, houve revolução. Em território de gente que raciocina haverá revolta e indignação quando faltar moral e dosagem nas atitudes governamentais, pois o poder emana e sempre emanará do povo.

E é à população que eu pergunto:

O retrocesso vai continuar?

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