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OPINIÃO

Resgate da memória

'Fatos ou atos sem importância acabam por marcar e fazer pessoas sofrerem...'

Por Murilo Machado


(Foto: Divulgação)/

O fato é que, observando as multimídias, deparo com notícia esportiva, pinçada lá pela sede do Clube de Regatas Vasco da Gama, clube do coração deste escriba moreno, notícia que dá conta de decisão dos dirigentes cruz maltinos em homenagear, para resgatar a memória do grande goleiro vascaíno Barbosa. A notícia nos remete a 1950, a inauguração do estádio Maracanã e a Copa do Mundo de Futebol, aqui disputada e que se constituiu em um dos maiores desastres, uma hecatombe, uma mancha na memória nacional.

Jogo final contra a seleção do Uruguai, festa nacional e já tido como favas contadas, no papo, ante a proclamada superioridade técnica e valores individuais do nosso selecionado. Naquele tempo o Vasco vinha de série de conquistas nacionais e internacionais, coleção de títulos e taças a crescerem em sua galeria, forneceu a maioria dos convocados para aquela seleção, tendo à frente dos que forneceu, o goleiro Barbosa, visto então como o melhor arqueiro do continente. Mas, e sempre tem um mas, não era o nosso dia. Um desastre.

A Celeste Olímpica nos aplicou dois gols e não tivemos capacidade de reação. Sim, mas e daí? Daí que o que assistimos de lá para cá foi a mais infame execração pública feita a um ser humano. Culpou-se, sem qualquer direito a apelação, o goleiro Barbosa, atribuindo- -se-lhe falhas imperdoáveis, tentativas tacanhas de não reconhecer mérito ao adversário que jogava melhor e se impunha.

Este escriba moreno, à época dormia em berço esplendido por conta de seus tenros 2 meses e meio de vida, alheio por tanto à tragédia que se abateria sobre a nação. Desde então, a maldição dos dois a zero perseguiu o Barbosa como um estigma. Durante anos proclamou-se que time nenhum deveria ter goleiros negros. O tabu só foi quebrado muito tempo depois pelo Manga defendendo o Botafogo.

Barbosa, dono de sorriso largo, sofreu em silêncio, sufocando a dor. Muitas vezes disse ele que o chute do Ghigia, recebendo passe magistral de Obdúlio Varela, pensava ele seria obstaculizado pelo Bigode que próximo, deveria ir combater o atacante, sabei eu lá que fazia o Bigode ali, pois ao que me consta era ele ponta esquerda. Antes de Ghigia, já Schiafi no havia visitado o nosso gol. Porém, não creio merecesse o Barbosa tamanha execração.

Note-se que este escriba não menciona, por não saber, quem era o goleiro do Uruguai. Se não é ele tão festejado, significa que não apareceu, não trabalhou e nem foi exigido pelo nosso ataque. Barbosa, diversas vezes mencionou o Código Penal sabedor que aquele Estatuto previa pena máxima de 30 anos pela prática de crime e ele, já no final da vida, estava cumprindo o dobro. A história é repleta de casos assim. Fatos ou atos sem importância acabam por marcar e fazer pessoas sofrerem. Perdoem o Barbosa.

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