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OPINIÃO

O morto

A vítima havia sido assassinada com inúmeros golpes de faca


(Foto: Divulgação) /

Bateram forte e bem cedo na porta da delegacia. As  batidas tinham sido feitas com algum objeto sólido. Era um dia de Verão, e aquele, em especial, tinha  sido muito quente. Já estávamos em pé. Sim, digo estávamos porque a delegacia era na nossa casa e meu pai era o delegado. Um cavaleiro, ainda montado no seu animal, estava ali na frente da porta. 

Tinha usado o cabo do relho para se anunciar, sem  desmontar. Trazia a notícia de que havia encontrado o cadáver de um homem jogado ao lado da estrada. Tinha achado o infeliz atraído pelo mau cheiro que de longe já rescendia, supondo tratar-se de uma rês. Indicou o lugar com detalhes. Fomos lá! Digo fomos, porque também fui com a comitiva do meu pai e  alguns policiais. Piá na idade que medeia da infância até a adolescência é por demais curioso quanto  a essas coisas trágicas. Curioso e metido. Todos são! 

A primeira coisa que me impressionou, quando nos aproximamos daquele corpo já em decomposição foi o avoaçar das moscas varejeiras. Fizeram aquele zumbido agudo ao serem espantadas. Que inseto nojento! As de cor verde-metálico e as azuis, que são as mais repugnantes! A vítima havia sido assassinada com inúmeros golpes de faca. Estava com as roupas inteiramente manchadas pelo sangue que já não era mais vermelho, mas preto pela putrefação. Devia  estar morto em torno de um a dois dias. Razão das moscas estarem ali agrupadas em enxames. O mau  cheiro era insuportável.

Dizem que o corpo humano, em decorrência da sua alimentação diversificada é a carniça mais catinguenta que existe. Acredito que sim, pois a "boca humana está entre as dez coisas  mais fedidas que se conhece". Tanto que uma das formas de procurar pessoas soterradas é espetar  uma vara pontuda no solo e cheirar a ponta. A carne humana podre tem um cheiro inconfundível. Mas  aquele morto me marcou. Tinha os olhos vazios e desumanos como os de um peixe sem vida. Só que naqueles havia ainda um brilho de desespero, de súplica, de pedido de socorro.

Juro que li naqueles  olhos uma mensagem revoltada de quem estava sendo abruptamente separado da vida, sem poder se despedir de ninguém. Talvez fossem coisas da minha cabeça de menino, mas jamais esqueci. Morrer desfaz a ordem natural dos nossos planos. Mas ver uma criatura morta naquela forma nos marca para sempre. Nos faz refletir sobre a insignificância da vida.

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