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OPINIÃO

Comprovação científica

Por Carlos Homem

Bastava dar um espirro, com os olhos lacrimejados, que minha mãe, imediatamente e travestida de médico, fazia um chá com mel e limão. Jamais fiquei sabendo se a receita dela tinha comprovação científica ou não. Garganta inflamada doendo? Enrolava um pano ensopado de álcool e mentruz no meu pescoço. A erva fazia o milagre. Nem tinha como discutir, ou apelar para a tal de comprovação científica. Piolhos? O combate a esses insetos era bem mais humilhante. Recebia uma farta aplicação de `Neocid´ na cabeça que era então enrolada com um pano de algodão por algumas horas. Este procedimento, via de regra, era coletivo. Bastava um ter o bichinho que todos na casa eram submetidos à igual tortura. Matava os parasitas bem ligeirinho, e ninguém até hoje atestou que o veneno pudesse me fazer mal ou me matar também. A mim, e a toda a criançada daquela geração. Nenhum "lacrador" daqueles tempos exigiu comprovação científica. Já no combate aos vermes, havia o costume de me obrigarem a tomar uma poção feita com sementes de mamão e arruda. Arre! Aquilo cientista nenhum teria coragem de prescrever! Dava um corre-corre dos diabos! Para que o umbigo do recém nascido não tivesse `rendidura´ era colocado nele uma faixinha enrolada no seu abdome. Nenhum cientista certificou tal tratamento. Para a cura da conjuntivite, colocava-se água num recipiente raso, deixando-a pegar o sereno de uma noite. No dia seguinte com um paninho branco, umedecido naquela água, fazia-se compressa sobre os olhos. Isso não teve, nunca, uma comprovação científica. Dia outro, um senhor me contava que periodicamente toma algumas gotas de creolina junto com o suco de um limão e uma cabeça de alho moída. Jesus! Que herói! Tampa o nariz antes para que o cheiro não o impeça. Nunca pegou gripe nenhuma, disse ele, e nem pegou o Covid. Se for denunciado, com certeza, vai ser preso, pois essa receita não tem comprovação científica. Então, essa frescura, terror, ou neurose de alguns contra o tratamento precoce através do uso da cloroquina e seus similares, porque não tem comprovação científica, tá fora. Sinto muito que minha mãe já tenha falecido há muitos anos, porque agora, por falta de comprovação científica, eu me escaparia daqueles tratamentos desamparados pela ciência.

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